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Para não esquecer

“All these times are so uncertain
There’s a yearning undefined
People filled with rage…
We all need a little tenderness
How can love survive in such a graceless age?”
(The Heart of the Matter – Don Henley)

Abomino lugares-comuns e congêneres. Mas não há sentimento que melhor descreva e resuma o que se passou durante a minha passagem pela Europa do que um manjadíssimo e démodé ”o melhor da viagem é voltar para casa”.

Dessa péssima, dolorosa e triste experiência eu tiro algumas lições que ficarão para o resto dos tempos. A primeira: laços de sangue nem sempre são são garantia de respeito, amor e carinho. A segunda: socorros inesperados podem aparecer através de pessoas e situações as mais inusitadas. Sim, ainda há uma terceira: o que falta neste mundo de Deus é um pouco de delicadeza. Só isso.

Ah, e como poderia me esquecer de mais esta: não deve haver perdão, nem em mil anos, para aqueles que desdenham e desrespeitam uma criança. Duas meninas ainda tão pequeninas, então, nem em uma centena de encarnações futuras.

Agradeço do fundo do coração a Marcello, Dennis, Marianne e Wolfram, que foram meu porto seguro no meio do maior temporal da minha vida.

Rodrigo, Nina e Helena: nosso profundo amor e união saem ainda mais fortalecidos, pois superamos juntos essa inimaginável e quase folhetinesca ‘experiência’. Meus pais e minha irmã: esse episódio só reforçou o quanto vocês são presentes e indispensáveis em minha vida.

Aos meus poucos e fiéis leitores: perdão pela quase inexistência de posts. Mas, acreditem, não valeria a pena eu tê-los escrito. Pois que seriam apenas relatos de malogros, desapontamentos, humilhações e desespero.

Ah, ainda me sobra coragem para mais um desabafo. Ainda não desisti da Alemanha. Os dias lindos que vivi n’outros tempos não vão ser apagados por um ato tão mesquinho, de duas pessoas que ainda não encontraram a paz. Que Deus possa ter piedade dessas almas. Eu ainda não evoluí o bastante para tal. E não quero e nem posso esquecer.

Sempre guardarei na memória as delícias do Mar do Norte, da Ostfriesland, de Oldenburg, Hamburgo, Düsseldorf, e também da Holanda. O Sul da Alemanha, a tal de Baviera, essa sim, será para sempre deletada dos meus pensamentos e coração. Sem dó, nem piedade. É a tal lei da reciprocidade.

 

Casa de Bertold Brecht, Augsburg/Bavária/Alemanha

O coracao do viajante é um músculo, além de involuntário, voluntarioso. Traicoeiro, consegue apagar dos confins da memoria todos os insucessos e malogros das viagens anteriores. Assim, faz do viajante um otimista em potencial, que zomba das intempéries e vive em eterno estado ‘Poliana’ de ser.

Eu havia mesmo me esquecido de uma e outra sisudez sem propósito, daquelas tipicamente européias. Tudo bem, me lembrei de novo e nao gostei novamente, confesso. Mas o aroma dos pinheiros, o frio que chega desavisado e corta até pensamento,  as casinhas de boneca, o sorvete com porcao extra de Sahne (chantilly), a sensacao de estar andando dentro de um livro de história faz apagar, de novo, todo e qualquer desamor.

(Perdao pela demora em escrever. Vida de viajante com rebentos a tiracolo tem lá suas delícias, mas nao sobre muito tempo para algumas delicadezas, como escrever pr´este blog. Mais tarde tem foto).

Título do meu texto preferido de Brecht, “Se os tubaroes fossem homens“. Pois que simples, pensado para os pequenos, e fabuloso.

Enquanto aperto a mala para caber tudo dentro e o coração, para não transbordar, deixo ao velho Braga a tarefa de discorrer sobre as delícias que envolvem o viajar. Agora, para embarcar, só falta chegar a hora e sobrar um tempo para coisas pequenas, fúteis e imprenscindíveis (!), como cortar o cabelo, fazer as unhas e decidir se é melhor ir de calça ou vestido…

A viajante
(Rubem Braga)

(…)
Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás.

Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada.

E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

 

Acredito que toda viagem começa bem antes do embarque. Pelo menos a mim, as mileumasensações que envolvem a simples idéia de embarcar se iniciam previamente, coisa de dias ou até semanas – a depender do destino e da ansiedade.

Falta pouco mais de uma semana para pegar o avião, mas minhas malas já começaram a ser ‘elaboradas’. É uma forma disfarçada, claro, de acelerar o tempo. Retomo as leituras em alemão, reavivo o dicionário empacado no canto da estante, ouço de novo as músicas já esquecidas. É uma maneira que encontro para mergulhar antecipadamente numa realidade que já deixou de ser minha há muito, mas com a qual vou me deparar por 30 dias.

Ainda não fixei um roteiro totalmente pronto, rígido, tampouco teci expectativas demais. O ‘deslocamento espacial’, por si só, já está me bastando.

Um espaço para minhas impressões de uma viagem de retorno. Alemanha, julho-agosto de 2008. Periodicidade indefinida, mas constante, à mercê dos rumos da viajante. Um velho novo olhar sobre a sensação de nunca ter ido embora. A quem interessar possa, convido a embarcar nessa jornada comigo.